O corpo literário de Ifá é composto por duzentos e cinquenta e seis Odù, que se dividem em duas categorias. A primeira categoria é chamada Ojú Odù (Odù principais) e consiste em dezesseis. A segunda categoria é composta por duzentos e quarenta Odù chamados Àmúlù Odù (ou Ọmọ Odù), os quais são formados através da combinação dos Odù principais.
O que são os Odù ou Signos de Ifá?
Ifá nos conta que Ọ̀rúnmìlà, antes de partir para o Òrun (céu), anunciou que enviaria divindades (os Odù) para o Àiyé (terra) para que atuassem em seu nome, com os mesmos princípios e ética que ele professava.
Quando Ọ̀rúnmìlà partiu para o céu, todos os seus seguidores começaram a se organizar para a chegada das divindades. Construíram dezesseis tronos que foram colocados em forma circular. Os Odù principais, liderados por Òfún Méjì, também chamado Òràngún Méjì, começaram a chegar à terra. Há um Ìtàn (história) que diz que Èjì Ogbe, por ser o menor, foi o primeiro a cruzar a porta que divide o céu e a terra. Quando o viram, as pessoas que esperavam a chegada dos Odù o consideraram como o maior e o líder de todos os outros.
Cada Odù de Ifá conta com sua própria representação gráfica de marcas. Através delas, os sacerdotes (Babalawos) podem diferenciá-los tanto na bandeja de adivinhação (Ọpọ́n Ifá) quanto através da corrente adivinhatória (Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá). Cada Odù consiste em inúmeros Ìtàn, Ẹsẹ Ifá (versos), mitos e ensinamentos que são aplicados em situações atuais para encontrar uma solução tanto espiritual quanto pessoal para um problema. Este sistema de adivinhação contempla todo tipo de relatos históricos, morais e sociais do povo Yorubá.
Os Àmúlù Odù são uma conformação bilateral entre dois Ojú Odù. Por exemplo: o Odù Ogbe tem 16 combinações. A primeira seria Ogbe com ele mesmo (Ogbe-Ogbe). Ao estar combinado consigo mesmo, recebe a conotação Méjì (duplo), passando a se chamar Èjì Ogbe. Depois viria a combinação com Òyèkú, que resultaria em Ogbe-Yèkú. A próxima combinação seria com Ìwòrì, obtendo como resultado o Odù Ogbe-Ìwòrì. E assim sucessivamente até chegar à combinação de Ogbe com Òfún (Ogbe-Fún). O mesmo padrão de combinação acontece com os 15 Odù restantes. Entre todas as combinações, obtém-se o total de 256 Odù de Ifá.
Os 16 Ojú Odù: Os Odù principais de Ifá
Odù Èjì Ogbe (Baba Èjìogbe ou Ogbe Meji)
Foi Èjì Ogbe quem revelou em seus Ìtàn (histórias) como o Orí (a cabeça, nossa consciência divina e destino) conseguiu ocupar um lugar de primazia e fixar-se como o guia do corpo humano. Este Odù representa o impulso primordial, o sopro e a evolução da própria vida; ele evoca a luz absoluta que ilumina o universo. O Odù Èjì Ogbe simboliza a fonte fundamental de sabedoria que nos ajuda a transpor os obstáculos. Ele narra a criação de todas as coisas por Olódùmarè, abrangendo as dualidades do mundo (o positivo e o negativo, a luz e a sombra) como partes indissociáveis do grande equilíbrio universal. É a representação da vida e da verdade em seu conceito mais amplo.
Odù Òyèkú Méjì (Oyekun Meji)
Foi Òyèkú Méjì quem revelou como Ọ̀rúnmìlà ensinou os humanos a se protegerem de uma morte prematura. É interpretado em muitas etnias como o mensageiro da morte. Revela a existência de um plano espiritual, a contração universal e os poderes da escuridão. Prediz destruição, morte e ressurreição. Fala da linhagem e do respeito aos nossos antepassados.
Odù Ìwòrì Méjì (Iwori Meji)
Ìwòrì Méjì foi o Ojú Odù mais antigo de Ọ̀rúnmìlà, eficiente em todas as práticas referentes a Ifá. No entanto, devido à sua prepotência e presunção, perdeu sua hierarquia diante de Èjì Ogbe e Òyèkú Méjì. Representa a força interna que se mantém oculta, o fogo nas entranhas da Terra. Fala sobre as boas e más intenções, e manifesta destruição, malefícios, ingratidão e desastres naturais. Odù isalaye de Yemanjá.
Odù Òdí Méjì (Odi Meji)
Este é um dos Odù mais fortes do corpus literário de Ifá, recomendando o fechamento de ciclos para abrir novas facetas em nossas vidas. Nos fala da tentação sexual, da formação dos gêneros nos seres humanos, do arrependimento e das ideias mal-intencionadas. Foi mais conhecido por sua belicosidade do que por seu sacerdócio. Dedicou-se a outras atividades nos exteriores do céu, negligenciando a prática de Ifá.
Odù Ìrosùn Méjì (Iroso Meji)
Este Odù de Ifá foi quem aconselhou as divindades que, ao chegarem à terra, deveriam ter cuidado ao implementar regras e regulamentações inflexíveis, já que leis rígidas geram rejeição e predisposição. Nos reafirma que para alcançar o sucesso é preciso enfrentar certos obstáculos, e ratifica que para escapar do infortúnio é preciso realizar sacrifícios. Nascem as lágrimas como representação da dor física, emocional ou espiritual. Fala das divindades marinhas, da criação dos fossos e buracos, e manifesta que a terra é redonda. Refere-se à clareza e objetividade que se deve ter ao identificar os problemas.
Odù Òwọ́nrín Méjì (Ojuani Meji)
Este Odù de Ifá, frequentemente também chamado de signo, nos fala da possibilidade de transformar a má sorte em boa fortuna, de se desapegar do passado para abrir um ciclo próspero e tranquilo no presente. Encarna a grande sabedoria dos profetas. Òwọ́nrín Méjì se baseia na fé e na esperança, na luta contra os reveses da vida. Representa o submundo. Foi Òwọ́nrín Méjì quem fez a adivinhação para Fefe e Ale (o vento e o solo) quando estes vinham para o mundo.
Odù Òbàrà Méjì (Obara Meji)
Representa o descanso após ter passado por um caminho cheio de dificuldades. Também simboliza a traição, insegurança e descrédito, assim como o vínculo familiar e as sociedades. Iniciou-se a confusão e a incompreensão pelos primeiros quatro Odù (Ogbe, Òyèkú, Ìwòrì e Òdí) independentemente de seu Odù estar para cima ou para baixo, eles sempre retêm sua identidade. Foi com Òbàrà que se deu o fato de que a inversão dos Odù começou a oferecer uma nova nomenclatura diferente. Se a marcação de Òbàrà se inverte, ela se tornaria Òkànràn. Assim é com os onze restantes Olódù de Ọ̀rúnmìlà.
Odù Òkànràn Méjì (Okana Meji)
Este Odù é a manifestação da justiça divina; evoca os processos de transformação, a arrogância e o egoísmo. Fala sobre a descoberta da agricultura e do comércio. Também faz referência ao impulso popular como resposta às imposições de um sistema de vida. Foi este Odù de Ifá que fez a adivinhação para Araba (Obadan em Bini) e Iroko (Uloko em Bini) antes que estes partissem para o mundo.
Odù Ògúndá Méjì (Ogunda Meji)
Combina a inteligência e a força. Manifesta-se o ferro como mineral e os avanços tecnológicos na sociedade. Fala da cadeia alimentar, da busca da verdade e da lei da sobrevivência, assim como da agressão, das disputas e dos sacrifícios. Nascem as incisões cirúrgicas para corrigir aspectos da criação. Foi ele quem revelou a história da segunda tentativa realizada pelas divindades para povoar a terra.
Odù Òsá Méjì (Osa Meji)
É a representação do tempo e da regulação do meio ambiente. Fala de furacões, terremotos e erupções vulcânicas como expressões da natureza para alcançar sua depuração. Reflete os combates entre diferentes povos e tribos antigas, além de conflitos impostos sob o falso preceito de inferioridade, nos quais alguns julgavam haver desequilíbrio na Criação. Aqui, Òsá Méjì manifesta que para Olódùmarè não existem divisões hierárquicas limitantes ou classes prediletas; aos seus olhos, todos somos iguais.
Odù Ìká Méjì (Ika Meji)
Foi quem trouxe ao mundo a violência e a covardia como contraparte da paz e da valentia. Este Odù de Ifá assinala o aparecimento de embarcações nos portos, os peixes no mar e o mundo que se esconde nas profundezas marinhas, assim como o mundo dos répteis. Ìká Méjì no céu chamava-se Ikere Iyansi. Era um awo muito poderoso e tinha muitos seguidores sob seu comando.
Odù Òtúrúpọ̀n Méjì (Otrupon Meji)
Òtúrúpọ̀n Méjì, também conhecido como Ológbọ́n Méjì, revela como a faculdade da inteligência veio ao mundo. Estabeleceu-se a hierarquia entre as deidades, os humanos, as plantas e os animais que habitavam a terra. Também foi o Odù Ológbọ́n Méjì que revelou como Ọ̀rúnmìlà e as outras divindades regressaram ao mundo.
Odù Òtúrá Méjì (Otura Meji)
Òtúrá Méjì foi quem fez adivinhação para Baba Imole, antes que partisse do céu para a terra. Este Odù fala sobre o fortalecimento dos laços familiares e da comunidade, vinculando a justiça social. Nos fala sobre o renascimento e o seguimento dos fenótipos e das espécies. Reflete a sucessão do dia e da noite, os segundos, minutos, horas, meses e anos; enfim, a representação do tempo no passado, presente e futuro.
Odù Ìrẹtẹ̀ Méjì (Irete Meji)
Nos avisa que tudo o que vamos possuir como seres humanos dependerá do nosso esforço. Ìrẹtẹ̀ Méjì é o Odù de Ifá que burla a morte ressuscitando. Refere-se à luxúria, à mistura de amor e alegria, com o ódio, choro e tristeza. Fala do uso da força para obter bens materiais. O sacrifício é a quota a pagar da dívida que tem com a humanidade. Um dos trabalhos mais importantes realizados por Eji Elembere no céu foi que ele fez adivinhação para a pomba e o pântano antes que estes abandonassem o céu.
Odù Ọ̀ṣẹ́ Méjì (Oshe Meji)
Manifesta-se como a vitória sobre os aspectos negativos da vida. Ọ̀ṣẹ́ Méjì não é conhecido por ter realizado nenhum trabalho espetacular no céu. Era famoso apenas por sua belicosidade; no entanto, foi ele quem revelou como o dinheiro (ou Ajé) veio do céu para a terra.
Odù Òfún Méjì (Ofun Meji)
Ele foi o primeiro Odù de Ifá que veio do céu para a terra, mas retornou ao céu para se tornar o último dos Odù a vir ao mundo. O «Òràngún» foi quem revelou que Olódùmarè levou seis dias para completar seus trabalhos de criação. Intervêm as divindades para esclarecer e interpretar melhor as coisas. Fala sobre o descanso que fazemos depois de realizar alguma atividade, a vida e a morte.
Os Odù de Ifá (Signos de Ifá) e seu Significado
Os Odù no processo adivinhatório de Ifá são os que refletem a mensagem através de conselhos, histórias e tabus. Estes nos guiam para poder resolver as dificuldades que se apresentam e viver no Ire.
Cada Odù de Ifá tem seu significado, o qual é decifrado por um Babalawo experiente e versado no corpus de Ifá. Este, valendo-se de sua experiência e conhecimento, deve determinar qual é o Ẹsẹ Ifá ou Ìtàn correspondente à pessoa a quem se está realizando a adivinhação.
Os versos de Ifá (Ẹsẹ Ifá) estão escritos sob um sistema filosófico que reflete a profundidade da literatura Yorubá. Para encontrar a mensagem e o significado dos mesmos, é preciso interpretar os distintos mitos, lendas e algumas fábulas que contêm os Odù.
De um ponto de vista teológico baseado na filosofia de Ìṣẹ̀ṣe L'àgbà, o mundo se divide em dois: uma parte física e uma espiritual. Ambas estão vinculadas e interagem de maneira harmoniosa. Quando existe algo que interrompe ou distorce essa harmonia, seremos advertidos através dos Odù de Ifá, já que cada Odù contém as vivências do mesmo tanto no terreno quanto no espiritual.
O aspecto espiritual nos revela o que cada Odù fez no céu, e também nos revela quais sacrifícios lhes foram recomendados antes de descer ao plano terreno, assim como as consequências de fazer ou não tais sacrifícios.
Em sua parte terrena, cada Odù de Ifá manifesta as atividades que realizaram na terra.
Este conceito é muito importante e deve ser compreendido por cada praticante e crente devoto de Ìṣẹ̀ṣe, já que quando um Odù se manifesta no Igbódù (quarto de consagração em Ifá) para uma pessoa, reflete a continuação do ciclo que aquele Odù iniciou tanto na terra quanto no céu.
O que é Ifá?
O termo «Ifá» pode se referir a vários conceitos dentro da cultura e religião Yorubá. Pode-se dizer que é o sistema filosófico e de adivinhação que contém referências históricas, sociais e mitológicas. Tradicionalmente, em terras africanas, acredita-se que Ifá é a mensagem de Olódùmarè para a humanidade, trazida por Ọ̀rúnmìlà, que difundiu as palavras de Deus por todo o mundo.
“Ifá ní ọ̀rọ̀ ẹnu Olódùmarè”. “Ifá é a palavra que sai da boca do Onipotente”.
A adoração à Ifá nos cânones da tradição tradicional (Ìṣẹ̀ṣe) reflete as práticas originais nativas. E outras ramificações possuem vertentes advindas da diáspora, gerando tradições como a Santería que possuem a mesma origem mas com adições sincréticas. Na pureza Nigeriana, os preceitos se firmam totalmente focados dentro do Corpus Literário de Ifá, sem qualquer necessidade ou mescla com santos de cultos ocidentais (uma vez que Ifá tem seu próprio corpo teósofico plenamente amarrado e suficiente para salvação espiritual).
O sistema de crenças confia num conceito Supremo, encabeçado por (Olódùmarè), o qual criou diferentes divindades (Òrìṣà) para que se encarregassem de diversas tarefas, de forma a gerir e suportar o plano espiritual do devoto, sem ser politeísta da mesma forma como religiões indo-europeias concebem o termo.
A palavra Ifá, em muitas famílias étnicas, refere-se com reverência às expressões e orientações de Ọ̀rúnmìlà. Ou seja: Ifá é a Religião/Corpo Literário, mas Ọ̀rúnmìlà é a Divindade em si encarregada de expressar essa voz ao devoto.
Ifá também aconselha seus fiéis seguidores a recorrer a ele sempre que precisarem de ajuda. Ninguém pode fazer isso melhor que Ifá, o Orí da pessoa e os Òrìṣàs. Os fiéis não devem temer; independentemente do Ibi (negatividade) que estiverem passando no momento, devem invocar o caminho de Ifá, pois suas declamações e ritos indicarão a melhor forma de afastar males e restaurar a paz.
O que significa Ifá?
A origem semântica da palavra Ifá significa “os frutos que podemos unificar e colher na sagacidade ancestral”. Procede do verbo monossílabo da língua Yorubá “fá” (colher ou arrancar/recolher). Faz-se referência a uma virtude intrínseca de buscar os resultados puros dos tempos com resiliência, aceitando aguardar que o momento da maturação permita as coisas despontarem de maneira firme. Um dos fundamentos diretos da filosofia de Ifá é a constância e sabedoria em lidar com os processos inalteráveis de maturação em que o ser humano, por conta de seu Orí, necessita lidar a todo instante para receber do Cosmos a sua vitória particular.
Como ler os Odù de Ifá?
Tradicionalmente, os Odù são lidos da direita para a esquerda em sua transcrição visual. Este Odù de Ifá é o resultado do processo de adivinhação realizado por um Babalawo. Esta cerimônia ou ritual pode ser realizada utilizando a corrente sagrada de Ọ̀pẹ̀lẹ̀ ou através das sementes de consagração chamadas Ikin Ifá.
O método de adivinhação com o Ọ̀pẹ̀lẹ̀ consiste no sacerdote (Awo) manipular um rosário de metades unidas. O Ọ̀pẹ̀lẹ̀, ao ter 8 sementes/conchas que podem cair com a face côncava/para cima ou para baixo, origina uma combinação que resulta em um Odù de Ifá particular a responder sobre o consulente.
O sistema de adivinhação através dos Ikin consiste em o Babalawo colocar em sua mão esquerda 16 sementes e com a mão direita tentar agarrar o máximo que puder. Se em sua mão ficarem 2 sementes, traçará na tábua (Ọpọ́n Ifá) 1 linha; se ficar apenas 1 Ikin, escreverá duas linhas. Este processo se repete em 8 ocasiões até que se componha um dos Odù principais ou um de seus 240 Àmúlù Odù. Este processo elevado e mais extenso se chama Ìtẹ̀fá (Ato de pulsar Ifá sobre as marcas).
Os Odù de Ifá e o oráculo dos Òrìṣà
Cada Odù de Ifá tem uma menção e manifestação de correspondência no oráculo do caracol ou Ẹ̀rìndínlógún (sistema de adivinhação usado pelos Olorixás “Sacerdotes de Òrìṣà“). É preciso esclarecer que, embora tenham certa relação originária na teologia Yorubá, não equivalem totalmente ao mesmo aprofundamento das escrituras, já que expressam a mesma sabedoria através das competências singulares de seus regentes divinos, não substituindo ou equalizando-se ao Dáfá de Ọ̀rúnmìlà, apenas contendo espelhos numéricos dentro dos cultos na liturgia.
Deixo-lhe uma lista dos Odù de Ifá com as aproximações das origens dos Òrìṣà refletidas e referendadas no Ẹ̀rìndínlógún clássico das etnias devotas:
- Èjì Ogbe – Èjì Ogbe (8)
- Òyèkú – Òyèkú (2)
- Ìwòrì – Ìwòrì (15)
- Òdí – Òdí (7)
- Ìrosùn – Ìrosùn (4)
- Òwọ́nrín – Òwọ́nrín (11)
- Òbàrà – Òbàrà (6)
- Òkànràn – Òkànràn (1)
- Ògúndá – Ògúndá (3)
- Òsá – Òsá (9)
- Ìká – Ìká (14)
- Òtúrúpọ̀n – Òtúrúpọ̀n (12)
- Òtúrá – Òtúrá (16)
- Ìrẹtẹ̀ – Ìrẹtẹ̀ (13)
- Ọ̀ṣẹ́ – Ọ̀ṣẹ́ (5)
- Òfún – Òfún (10)
Quais são os Odù de Ifá e sua ordem genealógica?
| Oyó | Benin | Cuba |
|---|---|---|
| Èjì Ogbe | Èjì Ogbe | Eyiogbe |
| Òyèkú Méjì | Òyèkú Méjì | Oyekun Meyi |
| Ìwòrì Méjì | Ìwòrì Méjì | Iwori Meyi |
| Òdí Méjì | Òdí Méjì | Odi Meyi |
| Òbàrà Méjì | Òbàrà Méjì | Iroso Meyi |
| Òkànràn Méjì | Òkànràn Méjì | Ojuani Meyi |
| Ìrosùn Méjì | Ìrosùn Méjì | Obara Meyi |
| Òwọ́nrín Méjì | Òwọ́nrín Méjì | Okana Meyi |
| Ògúndá Méjì | Ògúndá Méjì | Ogunda Meyi |
| Òsá Méjì | Òsá Méjì | Osa Meyi |
| Òtúrá Méjì | Ìrẹtẹ̀ Méjì | Otura Meyi |
| Ìrẹtẹ̀ Méjì | Òtúrá Méjì | Irete Meyi |
| Ìká Méjì | Òtúrúpọ̀n Méjì | Ika Meyi |
| Òtúrúpọ̀n Méjì | Ọ̀ṣẹ́ Méjì | Otrupon Meyi |
| Ọ̀ṣẹ́ Méjì | Òfún Méjì | Oshe Meyi |
| Òfún Méjì | Ìká Méjì | Ofun Meyi |
As diferenças estão unicamente na ordem vocal durante as rezas nas cidades sagradas, mas jamais na soberania ou conformação literária de vida e de nomes dos Odù no contexto de Ifá, seja nos dogmas puros da África ou através dos sacerdócios.
Conta o Ìtàn que este preceito de recitação com ligeiras diferenças ocorreu depois que as etnias yorubás de Ọ̀yọ́ receberam as sabedorias sob tempestades intensas, desfazendo acidentalmente o pó (Iyerosun) na bandeja em que repousavam as marcas de recitação alinhada originais e se moldaram pelas lembranças orais de todos naquela jornada.
O que é "Ifá Ní..." (Ifá diz)?
"Ifá ní..." (expressão Yorubá milenar que significa "Ifá diz") é como os preceitos autênticos relatam a abertura dos conselhos, Ẹsẹ e predições que Ọ̀rúnmìlà profere nos caminhos adivinhatórios perante seus Odù divinizados em consagrações.
Hoje em dia, a expressão baseia grande porte dos documentos da tradição. Quando as escrituras citam "Ifá Ní", invoca-se a transcrição fidedigna, um convite ao Babalawo imergir o seu conhecimento no Corpo Literário de Ifá de uma ramificação inalterável, fugindo de imaginações vagas do oráculo e se baseando verdadeiramente na moralidade das origens.
A profecia orienta-se pela revelação incontestável de um cenário em direção para os ventos abençoados (Ire) ou ao expurgo dos sinais prejudiciais e alarmantes perante transições amargas (Àyẹ̀wò).
Ìtàn:
Numa época de princípios longínquos, Olódùmarè ditou aos aspectos de finalidade de vida e mortalidade a sua regra. Iku, possuidora da lei ceifadora dos ciclos, aborrecia-se com as almas que estendiam as reações devido à essência de sua própria imortalidade através dos acertos com Ifá.
A procura de Ọ̀rúnmìlà e a revelação do Dáfá indicavam a Iku as proporções primárias criadas: a própria finitude requereria meios alinhados — vida, passamento humano e as moléstias geradas pelo caos material ou quebras do preceito individual (as forças geradas pela ira, aflição e transgressão). O Orí (Destino Pessoal de cada Alma), contendo toda e exata balança, seria e sempre representará os aspectos onde a pessoa dita seus próprios avanços ou os castigos inerentes que aproximam a desgraça. Em virtude do Orí ferido nas mazelas, Iku manifestaria seu controle antecipadamente.
É por isso que os Babalawos, curadores e decodificadores da lei universal, durante o Dáfá, não hesitam e persistem arduamente em desvendar e mitigar qualquer infortúnio que o Odù aponte; utilizando os ebbo (sacrifícios abençoados em ritos originais) a favor do abrandamento perante as contendas, preservando a harmonia da alma a salvo para atrair o sucesso.
O que é um Babalawo?
O Babalawo (Awo) é um sacerdote exaltado nas virtudes originais que iniciou aos segredos de Ọ̀rúnmìlà (a Majestosa Divindade da Adivinhação e do Destino). Ele, sendo representante nato da doutrina central de Ìṣẹ̀ṣe L'àgbà, invoca a sabedoria cósmica. Reflete hierarquicamente o detentor dos tesouros e das interpretações milenares do Oráculo na tradição.
O Babalawo descarta especulações, abraçando para si a sagrada missão de desvendar qual dos Odù guia um indivíduo frente à iminência de tomar grandes propósitos de vida como parcerias, união sob divindades, filhos e decisões comerciais, a fim de extrair as raízes dos impedimentos.
A base teológica e a devoção absoluta do Babalawo ocorrem através da adoração ao mais sagrado Olódùmarè (O Deus Supremo) como centro inigualável do Universo. Sem o sincretismo ocidentalizado dos tempos coloniais da diáspora moderna, as honrarias não mesclam doutrinas; se invocam no esplendor genuíno original da fé de Ifá através de suas próprias saudações matinais puras e exatas. As homenagens matutinas recaem a todas as energias, aos guias ancestrais da tradição daquele Babalawo, conectando-o de antemão de forma vibracional para estar perfeitamente habilitado para amparar seres humanos.
Portanto, o Dáfá constitui um complexo mergulho espiritual de estabilidade cósmica das auras de Òrun e Àiyé sem profanismos litúrgicos ou crendices modernas importadas, resgatando a ética, o dever e a moral genuína da fonte em cada orientação (Ìtàn e Ẹsẹ).
Regras, conduta ou mandamentos que um Babalawo deve seguir em Ìṣẹ̀ṣe
Nos tempos longínquos das grandiosas assembleias que uniram os 16 maiores sacerdotes do Mundo Espiritual, os imponentes seres recorreram em união até Ilé Ifẹ̀ no ensejo de obter claridade divinatória à suas longevidades sob o firmamento outorgado por Olódùmarè.
Ifá repassou as leis vitais e exclareceu na sua essência a total exigência pela verdade absoluta: "A raiz do perdurável se estabelece na puríssima intenção" (Não atribuir ao falso os contornos de verdades ocultas). Onde um inhame específico é conhecido pelas suas premissas botânicas puras e por elas deveria ser cantado aos devotos.
- A instrução basilar orientou que sacerdotes inexperientes ou destituídos da liturgia autêntica estariam amaldiçoados se operarem iniciações (cerimônias complexas com ritos aos grandes mistérios do Aṣẹ) desvirtuando ou falseando.
- Ensinamentos profundos, como aqueles da ave lendária Odídẹrẹ́ (papagaio cinza da glória), não devam ser transmutados como representações perversas e rasteiras para impingir o susto e assobios malévolos à leigos, ressaltando categoricamente o repúdio na manipulação do medo alheio (não a conduta do desencaminhamento deliberado no Dáfá).
- Humildade e sobriedade são cornetas inquebráveis da postura moral, sendo o Babalawo incapaz de invocar ser de uma sabedoria ou classe sem dispor de fato.
- Nunca transladar intenções criminosas nos lares, ou corromper a confiança cega em amparos morais da divindade ao visitar os templos ou residências (Reis e cortes de Oṣógbó).
- Evitar o perigoso trilhar e transgredir os tabus essenciais e interdições espirituais da existência e do ẹbọ, honrando as litanias (Ẹsẹ). Destruir o tabu acarreta não somente infortúnios pontuais como a total deturpação existencial.
- Resguardar pureza inquebrantável com elementos rituais e aos Òrìṣà (As fontes de dendê [ẹpo], os animais proventos, o silêncio respeitoso nos assentos da divindade, etc.) e preservar da impureza todo o seu manancial material (Tabuleiros sagrados (Ọpọ́n), vasilhas divinizadas, assentamentos do Igbódù).
- Nunca quebrar promessas conjugais devotadas a Òrìṣà, mantendo impenetrável honradez diante de confissões de amizades sólidas religiosas, onde perverter um elo social dentro das famílias ou se manchar com impuras profanações afetivas quebra a virtude superior do Orí.
- Silêncio aos julgamentos impuros sobre revelações feitas aos praticantes no santuário sagrado (Preservar as mensagens ocultas sem propagações desnecessárias fora dali).
Aqueles ancestrais que menosprezavam todas estas sentenças padeceram aos ventos conturbados, declinando rapidamente do amparo dos divinos caminhos em prol das adversidades terrenas severas. Repleto de frustrações, o panteão inicial amaldiçoara Ọ̀rúnmìlà pela dor imposta sobre o peito alheio. O Grande Sábio (Ọ̀rúnmìlà) retrucou severamente demonstrando em Ẹsẹ que os seus fracassos despontavam por intermédio claro da conduta profana e pervertida daqueles próprios, esquecendo-se da ética da sabedoria superior.
O mandamento e a disciplina de caráter contígua a esta filosofia estende-se como guiança não só aos ritos sacerdotais absolutos da tradição como é o alicerce mais valoroso que edifica qualquer peregrino e devoto da doutrina, sendo Ìwà Pẹ̀lẹ́ (Bom Caráter) o caminho glorioso a uma vida duradoura no manto iluminado de Ifá.
O que é o Dáfá e o que significa o Odù Revelado?
No Ìṣẹ̀ṣe L'àgbà, o Dáfá é o ato sagrado da consulta oracular. É através desse processo, utilizando instrumentos consagrados como o Ọ̀pẹ̀lẹ̀ (corrente de adivinhação) ou os Ikin (sementes sagradas), que se estabelece a comunicação com Ọ̀rúnmìlà para buscar direcionamento espiritual.
Durante o Dáfá, o oráculo traz à tona um sinal principal. Mas o que significa o Odù Revelado? Ele é a "fotografia astral" do consulente naquele exato momento. Esse único Odù carrega a mensagem de Olódùmarè e das divindades, revelando a raiz dos problemas que a pessoa enfrenta, as bênçãos que estão disponíveis em seu caminho e os ẹbọ (sacrifícios) necessários para equilibrar sua vida.
Uma vez que esse Odù se revela na bandeja ou no tapete, o Babalawo ou a Ìyánífá passa a entoar os Ẹsẹ Ifá (versos sagrados). Na tradição yorubá, o sacerdote não se limita a contar histórias; ele canta os poemas correspondentes àquele signo para invocar a energia da mensagem, permitindo que o consulente se identifique profundamente com a sabedoria transmitida.
Por fim, para entender as nuances daquele momento — descobrindo se o Odù vem acompanhado de Irè (Bênçãos) ou se alerta para um Ibi/Àyẹ̀wò (Obstáculos) —, o sacerdote utiliza os Ìbò. Tratam-se de pequenos objetos sagrados que o consulente segura nas mãos durante a consulta. Através deles, Ifá responde com exatidão sobre a origem do problema ou da sorte.
Ẹsẹ Ifá e Ìtàn: As histórias sagradas nos Odù de Ifá
Na tradição Yorubá de Ìṣẹ̀ṣe L'àgbà, os Ẹsẹ Ifá (versos poéticos e instruções fundamentais) abrigam os Ìtàn (histórias mitológicas e relatos sagrados), que se encontram incrustados no coração de cada um dos Odù de Ifá. Nessas sagradas declamações orais, Ọ̀rúnmìlà (Ẹlẹ́rìí Ìpín) ensina sobre as inúmeras engrenagens que arquitetaram a criação do cosmos, o estabelecimento da natureza planetária e o comportamento da humanidade aos olhos de Olódùmarè. Estes versos e passagens detalham a jornada existencial das divindades originais (Òrìṣà) e as interações que as mesmas possuíram em Òrun (o plano espiritual) e em Àiyé (o plano físico).
Os Ẹsẹ são recitados rigorosamente sob um tom proeminente de resiliência e erudição, e destilam sabedorias sobre a existência e o Destino (Orí).
Cada Ìtàn ou Ẹsẹ nos deixa chaves interpretativas de problemas reais no momento da adivinhação. Suas poesias, por vezes repletas de metáforas e profunda cadência da língua yorubá, precisam ser interpretadas com maestria pela lucidez do Babalawo.
Como um exemplo dessa sabedoria ancestral: No Odù Èjì Ogbe, Ọ̀rúnmìlà pontua as transformações cíclicas onde velhas doutrinas e renovações atrelam-se intrinsecamente na ordem mundial.
Òrúnmìlà ni “Hmmm” Mo ni, “Kilo de ti nkùn Bara’lésín Oyán?” Mo ni, “Kilo de ti nkùn Bara Adagba Ojùmú?” Mo ni, “Kilo de ti nkùn, Òkínkín A-téyín-erin-i-fon?” Òrúnmìlà ni òrò lo pò ni ikùn òun ti òun o reni ba so ó
Significado: Òrúnmìlà sussurrava “Hmmm” Eu indaguei, “Por que resmungas, Pai, eminente dono de corcéis em Ọ̀yán?” Eu indaguei, “Por que resmungas, Pai, grandioso líder na vila de Ìjùmú?” Eu indaguei, “Por que resmungas, Pai, tu que soas o marfim do elefante em música suprema?” Ọ̀rúnmìlà relatou que havia ponderações não decifradas em seu âmago, mas carecia de um ouvinte capacitado para partilhar os diversos assuntos.
Ìtàn: A Divindade Ogun empreendeu rumo ao comércio das vastidões quando cruzou as estâncias do recinto de Ọ̀rúnmìlà. Estando ali, decidiu saudá-lo. Ọ̀rúnmìlà enxergou-o e convidou-o fervorosamente para dividir o espaço sagrado sob o entretenimento de Ayo (o milenar tabuleiro tático yorubá das sementes nativas).
Notório durante as jogadas, transpareceu no olhar de Ọ̀rúnmìlà um peso indecifrável. Ogun ponderou a origem de tamanha apreensão retumbante do Oráculo: “A que se reverte a tua reflexão inatingível, Senhor Cavaleiro de Elefantes?”. Ọ̀rúnmìlà respondeu através do silêncio contido, afirmando ponderar as origens dos propósitos e a transitoriedade infinita entre inícios e declínios na balança de Olódùmarè.
Ogun bradou asseverando ser o próprio portador de todos os ritmos essenciais e o perito dominador da duração do cosmos. Como testifício, Ọ̀rúnmìlà mandou que ele buscasse do seu santuário interno um obì àbàtà (a sagrada noz de comunhão). Cativado e absorto pelo vislumbre imediato da porta do recinto de Ọ̀rúnmìlà repleta de indumentárias férreas intocadas e novíssimas relíquias de metalurgia incrustada, Ògún demandou se o oráculo as partilharia como presente.
Concedendo a honra condicional à conclusão daquela partida do tabuleiro, Ogun voluntariamente apressou e derrotou suas próprias jogadas, consumido pela cobiça de obter instrumentos forjados na mais nova pureza. Assim que a pressa abriu novamente a entrada do templo reluzente do oráculo, ele pasmou embasbacado ao relatar o vazio. Não haviam ferramentas inéditas ou metais imaculados; jaziam apetrechos envelhecidos, ferramentas gastas pelo alento e desgaste da passagem do tempo.
Explicou Ọ̀rúnmìlà reveladoramente ao desamparo e engano de Ogun, lembrando-o da conversa inicial que esse Ẹsẹ de Ifá assinala a essência perpétua. As glórias recentes, a intocável face das coisas plenas do presente, e todas as juventudes de Àiyé desvanecem sem interrupção perante o império de incontornáveis dias.
A glória das noções transforma os artefatos inéditos ao envelhecimento solene de todas as existências que povoam o reino e o sopro mutável da Vida, não existindo aspecto novo absoluto perante o passar inevitável das transformações.
Ọbàtálá também submetera reverentemente os portões de Ọ̀rúnmìlà em testifício de jogo. Recebido pelo pedido simples de resgate de Obì Abata, surpreendeu-se frente a figura de uma imaculada mulher aguardando no santuário de orações. Preocupando-se sobre as noções das consagrações, indagara de quem tratava a esposa ali presente, escutando de Ọ̀rúnmìlà que não se tratava de uma esposa mas sim de sua filha, almejando Obàtálá a cortejá-la com alegria e afeto ao escutar sua independência recíproca.
Sustentando a mesma ânsia pelo amor presente, Ọbàtálá tornou a focar a exuberância, mas presenciou no recanto ao invés da beleza estonteante da juventude, os traços de uma severa senhora enrugada e idosa. Ọ̀rúnmìlà resolveu o mistério dizendo a Ọbàtálá que as duas visões refletiam a realidade suprema: a juventude invariavelmente envelhece. A transição contínua transforma o "fresco" sempre no "Idoso".
Desta forma, constata-se a continuidade, pois os novos fenômenos e pessoas sempre brotaram incansavelmente das sementes imemoriais do passado.
Aspectos Comportamentais Revelados por Ifá
Os Ẹsẹ Ifá incutem aos praticantes o direcionamento pontual a comportamentos benéficos, bem como a necessidade de evitar energias que desagregam os destinos perante as inclinações da ganância, inveja ou manipulações alheias. Muitas passagens previnem contra os distúrbios da possessão nos relacionamentos ou o risco das magias manipuladoras. Dentro das regras milenares de Ifá, o livre-arbítrio (Orí inu) detém santidade intrínseca, e o ẹbọ prescrito repara as mazelas, quebra os grilhões e livra vítimas destas más intenções ao invés de atuar em feitiços maléficos e predatórios contra parceiros vitimizados.
Ao passo que alguns Odù de Ifá, através da poesia declamada por Ọ̀rúnmìlà, acendem sinais severos a possíveis invejas sentimentais e à quebra destas amarras:
- Alguns apontamentos milenares nos versos de Òyèkú e Òdì relatam passagens sobre o livramento e o corte inquebrável com as limitações de afeto e obsessão.
- Orienta-se fortemente, conforme declamado em narrativas de Ìrosùn ou Òwọ́nrín para expurgar as confusões alheias e purificar o destino daqueles que sofrem instabilidades.
- Ifá ressalta em versos de Ọ̀ṣẹ́ e Òfún que a humanidade precisa purificar os julgamentos possesivos sem a benção do alinhamento do próprio Orí.
(As associações antigas comumente conhecidas como "Amarrações" não refletem o verdadeiro código ético divino que impulsiona os Irúnmọlẹ̀. Em Ìṣẹ̀ṣe L'àgbà adere-se a rituais de atração de prosperidade pacífica de orí, repelindo rituais que anulem o livre-arbítrio).
Como Èjì Ogbe tornou-se o primeiro dos Ojú Odù de Ifá
Recitada minuciosamente a ordem de que os dezesseis Olódù maiores haviam descido sobre o Àiyé (Mundo físico), estabeleceu-se o desafio de designar uma hierarquia incontestável de chefia perante a Ordem de Ọ̀rúnmìlà. Òyèkú Méjì, que detinha o controle temporal perante o reinado noturno, requisitava para si a veneração fundamental por antiguidade. A congregação enviou um apelo para que Ọbàtálá lhes ajudasse e outorgasse o título soberano.
Para designá-los tacitamente sob prova, Ọbàtálá solicitou que fossem partilhadas as carnes cerimoniais de um roedor. Òyèkú Méjì se apoderou de uma pata, Ìwòrì Méjì desfrutou da oposta; Òdí, Òbàrà e os seus sucedâneos apropriaram-se das estruturas robustas. À singela postura de Èjì Ogbe, recaiu e lhe foi dada unicamente a responsabilidade da cabeça. Este rito se replicou perante os pescados selvagens, aves e ovinos, repousando a cabeça dos animais recorrentemente nas posses exclusivas do jovem Èjì Ogbe.
Demandados todos que repousassem em seus reinos e aguardassem três dias para o veredito final por parte de Ọbàtálá. Èjì Ogbe consultou o oráculo sob um ẹbọ perante Eṣù, que lhe aconselhou a assar um tubérculo sagrado (Inhame) em sua bagagem acompanhado de um recipiente contendo águas puras, instruindo-o a caminhar em direção a congregação sem pressa ou angústia pelo horário.
Os outros Olódù apressaram as passadas em direção a casa das decisões. Èjì Ogbe, desprovido de pressões pelo caminho, parou diante de uma idosa desgastada e frágil no percurso, carregando atestados pesados do dia. Orientado pela sabedoria que escutou, assumiu os fardos laborais dela e lhe saciou as penúrias nutrindo-lhe o corpo com seu único inhame e com seu gole d'água resguardado.
Quando a caminhada humilde culminou no repouso da idosa, ela o transportou ao seu recinto privado, o ornamentou transfigurando em seus ombros o véu luminoso das grandes roupas fúnfún (as brancas tecelagens) e fixando um penacho carmim do nobre papagaio. Ungiu com as sagradas virtudes puras (Efún) e enviou sua esplêndida presença aos frontões arquitetônicos de onde reinava Ọbàtálá. A revelação estonteante: aquela aparente mendiga era, na essência, representativa da Maternidade de Ọbàtálá disfarçada pelos confins.
Na corte majestosa de Ọbàtálá, aos dezenas impacientes aguardavam pela porta. Ọbàtálá instigou quem eles testemunhavam a estar de vinda no patamar. Os próprios Odù não desvendaram quem era tamanha excelência paramentada e reverenciada; submissamente saudaram ao mestre oculto pondo seus corpos inteiros de encontro ao solo. Somente ao escutarem de Ọbàtálá que este líder era Èjì Ogbe formou-se um misto de silêncio e choque pela reverência não intencional e arrebatadora já executada.
Ọbàtálá sentenciou à murmúria irrefutável expondo ao conclave de Odù como a indicação de Rei já existia perante a ordem das divisões passadas ao partilharem involuntariamente a ele unicamente as cabeças nas imolações sacras: Onde quem controla inegavelmente a Coroa Maior (o Orí) carrega as insígnias de comandar perpétuamente todos os aspectos do ser, não existindo líder algum destituído do poder vital da mente, tornando-o o primaz coroado da Casa de Ifá (Akoko-Olokun). E em agradecimentos suntuosos da natureza, Èjì Ogbe consagrou o que tinha de oblatas aos búzios dos oceanos abertos e reinou em prosperidade perene.
Perguntas frequentes relacionadas com os Odù de Ifá
Qual é o melhor Odù de Ifá?
Todos os Odù de Ifá contemplam as virtudes do Ire (positivo) e a precaução frente aos Àyẹ̀wò (alertas e impasses). Para colher as venturanças abençoadas do nosso próprio Odù, faz-se estritamente necessário evitar o rompimento dos interditos espirituais (os Tabus) que resguardam o alinhamento individual do Orí. A perfeição divinatória provém de que o melhor Odù que existe é justamente aquele outorgado celestialmente ao nosso próprio coração perfeitamente harmonizado com Ifá, transbordando o melhor de si independentemente dos temores irreais gerados pela incompreensão dos leigos.
Embora o sistema se pautar de extrema sabedoria equilibrada das escrituras sem Odùs supostamente maléficos ou supostamente "magos insuperáveis", a liturgia contempla unicamente uma ordem de manifestação (surgimento ou idade genealógica) como símbolo didático da descida que cada fluxo de inteligência divina aportou frente à matriz da existência natural.
Quantos Odù de Ifá existem?
O Corpus Oracular integral consiste exatamentemente em duzentos e cinquenta e seis (256) representações. Constituindo a unificação fundamental dos puros 16 Ojú Odù originários do firmamento do Destino que ao multiplicarem os feixes da dualidade da existência natural manifestaram os 240 Odù combinados ou nascidos da ancestralidade divina (Àmúlù Odù ou Ọmọ Odù).
Como saber qual é o meu próprio Odù de Ifá?
Para assimilar em total reverência e exatidão os propósitos ditados pelo próprio Destino individual, as famílias das vertentes religiosas yorubás recomendam invariavelmente uma iniciação. Perante ritos consagrados autênticos executados somente pela experiência proficiente de um Babalawo (na cerimônia de Ìtẹ̀fá ou Iniciação Elemental), o Awo afiliará de maneira perene o Dáfá (Adivinhação de consagração), atestando perante Ifá não só o Odù de regência de vida do consulente recém ungido mas o desvendar de seu Òrìṣà Tutelar nativo, proporcionando as plenas vitórias para as portas que se abrirão e conselhos abalizadores durante as intempéries até os dias de extrema maturidade sagrada.
